domingo, 15 de abril de 2018

Pelo deleite do ócio, por conta de uma ousadia


Lídia Maria de Melo


            Aos 80 anos, para mais nada era cedo.
      Saiu do elevador sorrateiro, ignorando o chamado da nora pelo interfone e sem cumprimentar o zelador. Assim evitaria indagações. Estava cansado dos cuidados e da histeria dela no controle da casa, do filho com os canhotos dos cheques e dos netos pelo computador. Queria comer tranquilo sua feijoada, tradição sabatina de quem não perdera o gosto pela vida e seus temperos. Tinha urgência desses prazeres. Já vivia seu futuro.
     E foi pensando nisso que alcançou o calçadão da praia, antes de escolher o restaurante onde iria almoçar. Com a nova estação, os chapéus-de-sol  já estavam desnudos e a folhagem formava um tapete para o vaivém indiferente de rapazes e moças. No seu tempo, melhor dizendo, na sua juventude, porque seu tempo era agora, só os  pedestrianistas gastavam energia correndo pra lá e pra cá. Agora era uma febre, mas não deixava de ver beleza naquela  coreografia de corpos exuberantes.
         Quando chegou à cidade, 65 anos atrás, pensou que seus canais revestidos fossem córregos domesticados pela artimanha de algum desvairado. Depois descobriu a finalidade sanitária daqueles drenos fincados no solo  encharcado e aplaudiu. Agora andavam querendo cobrir esse íntimo artifício geográfico, para criar bolsões de estacionamento. Coisa de gente sem história e sem preocupação com a saúde pública. Fossem buscar solução para os arranha-céus recalcados na orla da praia. Essa providência traria benefício maior à população e à arquitetura.
          Continuou andando sem rumo, apenas pelo deleite do ócio. O filho, a nora e os meninos deveriam desfrutar dessa preguiça, decerto economizariam o tanto que gastam para combater o estresse. Nisso ouviu um chamado do outro lado da rua. Acenou sem mostrar disposição de parar. Era o amigo psiquiatra, que ganhou notoriedade ajudando almas atormentadas da alta roda, mas não vencia a frustração de jamais ter conseguido libertar o filho e a filha de sua jurisdição, como ele mesmo costumava dizer. A moça, que  já nem merecia ser assim chamada, pois já passava dos 50, ainda pedia permissão para sair à noite. O rapaz, um pouco mais novo, casou, era pai de filhos, mas nunca montou casa própria. Ainda ocupava cômodos da mansão do pai. “Casa de ferreiro, espeto de vara bem fraquinha”.
       Pouco antes de entrar no restaurante, vasculhou a memória na intenção de encontrar o nome do amigo psiquiatra. Estava na ponta da língua, mas não desgrudava. Sentou-se, pediu ao garçom uma caipirinha de pinga e a  feijoada. Do início ao fim do almoço, fez novos esforços, mas só se recordou de Nico Fidenco, o porco criado pelo pai nos fundos do quintal de casa e lavado todos os dias para não cheirar mal.
          Foi com Nico que começara a duvidar, aos 10 anos, da teoria de que os bichos eram irracionais. Irracionais eram o filho, a nora, os netos e todos os que desperdiçavam aquela portentosa tarde de sol, confinados em apartamentos diante de um computador. Nico atendia aos seus chamados e respondia às suas falas, grunhindo demoradamente. Sabia que haviam estabelecido um meio de comunicação. Só se sentia frustrado por não ser capaz de decifrar o que o amigo de estimação lhe transmitia.
        Já adulto, um cão ajudou-o a reforçar a convicção de que os bichos também raciocinavam. De dentro de um ônibus parado, acompanhou a primeira tentativa que o animal fez para pular um muro. Como não conseguiu, ele tomou distância, observou, como se calculasse, e arriscou novo salto. Diante de outro fracasso, ele se afastou mais ainda e pulou, aí sim, na altura desejada. Se aquela sequência de ensaios e erros não expressava uma  espécie de raciocínio, não sabia mais o que era pensar. Como somente os cientistas tinham autoridade para ditar conceitos dessa natureza, jamais polemizou sobre o assunto. Mas consigo mesmo preferia seguir a intuição.
           Despreocupou-se do nome do amigo. A lembrança não alteraria o curso daquela tarde. Após pagar a conta, resolveu retornar por umas ruas internas que ele conhecia de tantos e tantos anos. Entrou na farmácia da esquina onde costumava se reunir com a garotada, antes de ganharem os bailes, num tempo que nem o calendário devia mais registrar. Perguntou por  Célio. O balconista franziu o cenho, constrangido, e disse não conhecer a pessoa que ele procurava. Não deu o braço a torcer para aquele rapaz ainda imberbe. Decerto era um distraído. Como podia desconhecer que o Célio fora o proprietário daquele estabelecimento por anos e anos e atendera os moradores da Vila Hayden e de outros bairros, quando vinham buscar  ajuda na aflição de uma dor de ouvido, de uma gripe insistente, uma inflamação de garganta? Ainda quis perseverar, mas o rapaz já se ocupava de um freguês. Os jovens eram assim mesmo, sem tempo para escutar.
          As ruas também já não possuíam o aconchego da vizinhança, pensou, seguindo em frente, para um instante depois se surpreender com uma moça de olhos fortes, que caminhava no sentido inverso, mirando-o com firmeza e comentando para a companheira, sem se importar se ele podia ouvir: “Que homem bonito! Imagine quando era novo”.         Lisonjeado e encabulado pela atitude que antigamente seria considerada atrevida, por pouco não agradeceu à desconhecida. Havia tempos ninguém o chamava de homem. Perdera a referência de quando passou a ser tratado por idoso, senhor, velho e simplesmente ’vô. Agora, por conta da ousadia daquela jovem, voltava a adquirir o vigor e a dignidade viril. Ainda era um homem. A tarde ganhava mais viço, embora estivesse caindo.
           Quando dobrou a esquina de sua rua, nem se incomodou, como era seu costume, com o avanço voraz dos prédios sobre os espaços das casas. A disposição deixava-o mais complacente. E  mais sensível também. A ponto de se extasiar perante a cena extemporânea: um vendedor de milho verde apertava com insistência e ritmo a buzina de seu triciclo, fazendo descer crianças de tudo quanto era andar dos edifícios próximos, como numa convocação. Salvatori Tardelli então sorriu pleno: “Como nos tempos das casas!”
           A tarde se retirava. O aroma das espigas cozidas afagava-lhe as narinas e a boca se enchia de água. E mais crianças chegavam, rodeando o vendedor. Entre elas, um dos netos. O menorzinho. “Como nos tempos das casas!”, repetiu satisfeito. Quando passou pelo porteiro, cumprimentou-o efusivo, com o sorriso aguçado. Agora,  já era noite. E Salvatori Tardelli, um menino.

                                                                         
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(Escrevi este conto em 1997 e publiquei no jornal A Tribuna, de Santos/SP, no dia  27 julho de 1997) 
Aproveite e lei também o meu conto Bala Perdida.
       
               

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Ganhador do Prêmio Vladimir Herzog em 1997, conto Bala Perdida narra agonia de menino alvejado

BALA PERDIDA (*)

                                                                                      
                                                                                                                       Lídia Maria de Melo (**)



       Vivia atrás das balas que os fregueses recebiam de troco nos supermercados e abandonavam ali mesmo nos caixas. Ou daquelas que os freqüentadores de cafés ganhavam de brinde e nem retiravam dos pires. Umas traziam mensagens românticas nas embalagens, outras eram mais sisudas. Pouco lhe interessavam essas características, porque o papel nem chegava a ir para um cesto. Ficava mesmo pelo chão das ruas que percorria na sua catança instigante. Até fazia apostas com os moleques da turma sobre a quantidade que encontraria nos estabelecimentos situados no percurso da escola para casa. Na volta ficava mais livre, sem se importar com horário. Na ida, se houvesse atraso, a professora enchia o saco e ainda dizia que as balas eram um inimigo cruel porque atacavam os dentes com cáries. 
      Mas quando garimpava balas, queria mesmo era o doce, o sabor de leite, de açúcar, de mel, de coco, de chocolate... Podia até ser de hortelã, apesar do ardor . Só não buscava as amargas de café ou esse meloto incômodo que agora lhe lambuzava o rosto, lhe tingia os dentes e deixava a boca com esse travo nojento. Nunca procurou esse visgo que agora tomava seus olhos, turvando o caminho de casa e retardando o andar das pessoas, como se elas fizessem parte do replay de um gol em câmera lenta.
      Gostava de balas e de bolas. Das de gude nem adiantava gostar, porque o que aprendera com o pai ninguém mais sabia fazer. Aquele manejo de dedos que ele tinha para matar as do adversário nunca mais conseguiu ver, depois que ele morreu no meio de um fogo cruzado, quando subia o morro, num início de noite de uns quatro anos atrás.  Na  compreensão dos seus 10 anos de vida,  o futuro dependia da habilidade que os pés tivessem para dominar a de capão. Por isso, todas as tardes, lá pelas tantas, se juntava com a molecada da rua e partia para um campo de várzea, onde treinava seu ataque, na esperança de um dia defender o seu time do coração. A mãe já lhe prometera que, se passasse para a 5a. série, podia contar que iria ver, das arquibancadas do Maracanã, seu ídolo jogar.
      Só um prazer de moleque que agora não compreendia de onde vinha esse zumbido repetido e o queimor na cabeça. Que rodopio era esse, de pipa fisgada em cerol, que aproximava as pessoas e as afastava de repente, numa ciranda tão bêbada? Por que havia tantos gestos e movimentos de bocas e nenhum som?
      Chamava-se Vivier, um nome em desacordo com o sobrenome comum. Não se pronunciava a última letra e a penúltima era fechada, como se vestisse um chapéu daqueles bem circunflexos. A explicação ouvira do avô paterno, autor daquela esquisitice, por causa de um francês a quem ele prestara serviços nos tempos em que trabalhou em um cassino. Velho elegante o avô, que arriscava uns passos de dança, vivia sorrindo à toa e morreu dormindo, na boa, um ano antes do filho tombar com um tiro no peito, no meio daquele fogo cruzado de uns quatro anos atrás.
      Mas as pessoas em volta não conheciam sua história, nem sabiam o que fazer para evitar que em instantes desse com a cara no chão. Melhor era tentar chegar perto do muro ou do tronco de uma árvore. Também não podia esquecer de comprar os dois retroses de linha, uma vermelha e outra azul, senão a mãe ia ficar brava, porque tinha que terminar a encomenda de costura. Mas as pernas não passavam de dois fios de macarrão cozido. Como é que iria jogar lá pro final da tarde? Os moleques iam pensar que estava com medo do Requeijão, o zagueiro do outro time, só porque o atrevido cheirava cola e traficava a poeira. Deixava essas coisas pra eles que eram da mesma laia e se entendiam. Não via graça em nenhum desses bagulhos. Mesmo quando o Tijolo lhe ofereceu um troco para levar uma encomenda  no Morro do Chapéu. Não foi que não era trouxa e a mãe já cansou de falar que não quer ganhar dinheiro fácil e perder filho pra droga. O que tirava com as costuras ainda estava dando pro gasto. E por falar em dinheiro, as moedas para pagar as linhas estavam no bolso esquerdo. Precisava ter cuidado para não perder no meio dessa gente estranha velando sua tontura.
      Agora já não via mais nada. Nem sentiu quando o corpo tombou de uma vez no chão. Tampouco ouviu as sirenes da Polícia e do resgate dos Bombeiros, que atraíam ainda mais uma multidão curiosa e desnorteada, com a constância de cenas daquele tipo. Um soldado o envolveu num cobertor, percebendo seus calafrios, e colocou-o na maca junto com a mochila da escola. Os procedimentos de primeiros socorros eram os mesmos que ele já vira fazer em outras tantas pessoas. Agora era a sua vez de ser arrancado dos trilhos e jogado num roteiro sem nexo e sem autoria. Mas nada disso lhe doía, por obra da inconsciência.    
      Quando a mãe o encontrou, com a mesma roupa suja de sangue, os cabelos num grude só e moscas pousando na testa, ele tinha um braço estirado  por onde tomava soro. Horas tinham passado e a noite já começava, como a pelada contra o time do Requeijão. Ninguém sabia informar se a operação ainda seria naquele dia, porque não havia vagas e o jeito era esperar ali mesmo no corredor do hospital. O desespero a dominou, mas a enfermeira pediu que tivesse calma. Seu drama era mais um. Casos iguais ao de seu filho ocorriam diariamente. Ela não via pela televisão? Era como uma guerra civil, ainda acrescentou a enfermeira, antes de seguir adiante, fazendo-a lembrar-se da cena do filme que ela simplesmente chamava de “O Vento Levou” , porque não via sentido em dizer o nome com um “e” sobrando bem no começo. Gente e mais gente estropiada, cheia de dor e sem remédio e só um velho médico  para atender. Seu Vivier nem com isso contava. Já fazia um tempo que estava ao lado do filho e nenhum doutor tinha passado para lhe dar um conforto.
      Só Deus podia ajudar. Não era possível que uma criança saísse para a escola e não tivesse certeza de que iria retornar. Já com o marido foi o mesmo sobressalto. Agora não era justo que tivesse que passar por um sofrimento igual. Onde é que estavam os políticos naquela hora? E o dinheiro que descontavam cada vez que trocava um cheque do pagamento das costuras? E a contribuição do INSS? Tanto pagar e pagar e agora tinha que ver o filho morrendo à mingua sem ninguém pra socorrer? Isso não estava direito! Só dando uma de louca e começando a gritar. Quem sabe a televisão aparecesse e eles tivessem medo e viessem dar solução pro caso de seu menino infeliz.
      Impaciente de tudo, passou a entrar e sair das salas que davam para aquele corredor onde jogaram seu filho e tantos outros cidadãos, nas costas de quem eles deviam dar tapinhas em tempos de eleição. Nem uma alma sequer. Decerto por aquelas horas, os médicos estavam jantando, assim como o prefeito, o governador e o presidente. Quem iria se importar com o tamanho de sua dor?  Se seu menino estava com a cabeça aberta e cumpria uma pena por um crime que não cometeu? Os verdadeiros bandidos não estavam na cadeia, mas Vivier jazia preso naquela agonia sem fim.
      Só Deus daria um jeito. Se ele não desse, ninguém adivinharia a impotência que lhe dilacerava as entranhas. Pobre não nascera pra viver. Não podia ser verdade a crença de sua vizinha, de que a única saída é matar pra não morrer. Não foi o que planejou no dia em que o filho nasceu. Alguém haveria de ter um pouco de compaixão. Um inocente morrer, como o último dos miseráveis, só mesmo num país sem leis e sem dignidade, onde o dinheiro dos pobres ajuda a proteger os ralos da safadeza. Nossa Senhora valesse, que o coração de uma mãe não suportaria ver aquela heresia.
      Tudo o que seu filho queria, pensou, acariciando o bracinho livre da agulha, era jogar futebol, fazer sucesso e ganhar dinheiro. E assim ia poder ajudar uma porção de criancinhas e comprar um monte de balas. Do sabor que preferisse. Bala de coco, de alfenins, de leite, de chocolate... Ia morar no estrangeiro, longe desses tiroteios. Nunca mais precisaria esperar tanto por um médico e nem testemunhar que, quando um deles chegasse, já não tinha mais o que fazer, como agora, que ele só pôde perguntar se fora uma bala perdida.

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(**) Lídia Maria de Melo é jornalista, professora-universitária e autora do livro-reportagem Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós (relato da experiência de sua família com a ditadura militar e o navio que foi presídio político no Porto de Santos em 1964). Formada em Letras e em Jornalismo, é Mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), com pesquisa Neologismos em Pauta: Os Jornais com Disseminadores e Criadores de Novas Palavras. Em 2018, cursa o último ano de Direito na UniSantos.


(*) Bala Perdida venceu o XIX Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos-1997, categoria Literatura (http://premiovladimirherzog.org.br/busca-resultado-autor.asp?id=493&letra=L).
Registrado na Biblioteca Nacional, sob o n.° 287.594, livro 520, folha 254. 
Publicado no jornal A Tribuna, de Santos, na edição de 25 de outubro de 1998, na Ceciliana nº 9,  Revista de Estudos da Unisanta, em 1998, e no site da Faculdade de Artes e Comunicação, disponível em:  http://sites.unisanta.br/faac/espaco/balaperdida.html.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Há 50 anos, o sul-africano Christiaan Barnard tornava-se pioneiro em cirurgia de transplante de coração

 3 de dezembro de 1967. Há 50 anos, o cirurgião sul-africano Christiaan Barnard surpreendia o mundo ao realizar, na Cidade do Cabo, na África do Sul, o primeiro transplante de coração da história da humanidade. O feito foi notícia em toda a imprensa, radiofônica, televisiva e impressa.Em São Paulo, o Jornal da Tarde estampou na edição de 4 de dezembro de 1967 a seguinte manchete: "Coração de moça salva velho".
A moça era uma doadora de 24 anos, bancária. Seu nome foi identificado pelo Jornal da Tarde como Ann Darvall. Em outros veículos, consta Denise Darvall. 
Já o velho que recebeu seu coração era o comerciante Louis Washkansky, cuja idade foi publicada pela imprensa de modo impreciso. A informação variou de 53 a 55 anos. Na verdade, nem tão velho assim.
Washkansky morreu 18 dias depois da cirurgia, em consequência de uma infecção pulmonar. A ingestão de muitos medicamentos, para combater a rejeição ao novo órgão, acabou debilitando o sistema imunológico do paciente. Apesar disso, o coração funcionou perfeitamente até a sua morte.
Eu era criança quando o transplante aconteceu. E uma das primeiras coisas que aprendi com essa intervenção cirúrgica de repercussão mundial foi que na África também havia brancos. Essa descoberta curiosa na  minha visão infantil foi mencionada, anos depois, em meu livro "Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós", nas páginas 23 e 24 (clique nas imagens abaixo, para ler):


No ano posterior, foi a vez do cirurgião brasileiro Euryclides de Jesus Zerbini realizar o primeiro transplante cardíaco no Brasil. A cirurgia aconteceu no dia 25 de maio de 1968, no Hospital das Clínicas, em São Paulo. 
A edição do dia seguinte do Jornal da Tarde saiu com um "Extra" acima da manchete "Coração trocado vai bem".
O paciente transplantado era o boiadeiro João Ferreira da Cunha.
O doador, um homem de mais ou menos 30 anos, sem documentos, que morreu atropelado por um Vokswagen (Fusca) azul na estrada de Cotia. Um de seus rins foi recebido pela paciente Mercedes Scudeiro Leme.

domingo, 19 de novembro de 2017

Símbolo da Terra


                                                                           
                                Lídia Maria de Melo

             Neste teu dia solene,
             eu te saúdo, bandeira,
             em versos e questionamentos.
             Tua combinação de cores,
             verde-louro, alvianil,
             reflete as alegrias e dores
             deste recanto do mundo
             denominado Brasil,
             terra que ultimamente
             ziguezagueia
             em conflitos soturnos,
             em disputas arrepiantes.
             Quisera fossem debates estéreis.
             Não são.
             São temerários, lancinantes,
             capazes de aniquilar
             o acervo de um povo,
             como se não importassem os símbolos.
             como se não houvesse memórias.
             Minha bandeira,
             cada matiz que carregas
             traduz um sentido, um quinhão de nosso território.
             Tomara, então, que o patrimônio humano
             deste nosso país soberano
             saiba um dia compreender
             que o valor do teu verde, amarelo, azul e branco
             extrapola a representação gráfica,
             vai além de um simples pedaço de pano. 

(Iniciado em 19 de novembro de 2016 e concluído em 19 de novembro de 2017)