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quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Ganhador do Prêmio Vladimir Herzog em 1997, conto Bala Perdida narra agonia de menino alvejado

BALA PERDIDA (*)

                                                                                      
                                                                                                                       Lídia Maria de Melo (**)



       Vivia atrás das balas que os fregueses recebiam de troco nos supermercados e abandonavam ali mesmo nos caixas. Ou daquelas que os freqüentadores de cafés ganhavam de brinde e nem retiravam dos pires. Umas traziam mensagens românticas nas embalagens, outras eram mais sisudas. Pouco lhe interessavam essas características, porque o papel nem chegava a ir para um cesto. Ficava mesmo pelo chão das ruas que percorria na sua catança instigante. Até fazia apostas com os moleques da turma sobre a quantidade que encontraria nos estabelecimentos situados no percurso da escola para casa. Na volta ficava mais livre, sem se importar com horário. Na ida, se houvesse atraso, a professora enchia o saco e ainda dizia que as balas eram um inimigo cruel porque atacavam os dentes com cáries. 
      Mas quando garimpava balas, queria mesmo era o doce, o sabor de leite, de açúcar, de mel, de coco, de chocolate... Podia até ser de hortelã, apesar do ardor . Só não buscava as amargas de café ou esse meloto incômodo que agora lhe lambuzava o rosto, lhe tingia os dentes e deixava a boca com esse travo nojento. Nunca procurou esse visgo que agora tomava seus olhos, turvando o caminho de casa e retardando o andar das pessoas, como se elas fizessem parte do replay de um gol em câmera lenta.
      Gostava de balas e de bolas. Das de gude nem adiantava gostar, porque o que aprendera com o pai ninguém mais sabia fazer. Aquele manejo de dedos que ele tinha para matar as do adversário nunca mais conseguiu ver, depois que ele morreu no meio de um fogo cruzado, quando subia o morro, num início de noite de uns quatro anos atrás.  Na  compreensão dos seus 10 anos de vida,  o futuro dependia da habilidade que os pés tivessem para dominar a de capão. Por isso, todas as tardes, lá pelas tantas, se juntava com a molecada da rua e partia para um campo de várzea, onde treinava seu ataque, na esperança de um dia defender o seu time do coração. A mãe já lhe prometera que, se passasse para a 5a. série, podia contar que iria ver, das arquibancadas do Maracanã, seu ídolo jogar.
      Só um prazer de moleque que agora não compreendia de onde vinha esse zumbido repetido e o queimor na cabeça. Que rodopio era esse, de pipa fisgada em cerol, que aproximava as pessoas e as afastava de repente, numa ciranda tão bêbada? Por que havia tantos gestos e movimentos de bocas e nenhum som?
      Chamava-se Vivier, um nome em desacordo com o sobrenome comum. Não se pronunciava a última letra e a penúltima era fechada, como se vestisse um chapéu daqueles bem circunflexos. A explicação ouvira do avô paterno, autor daquela esquisitice, por causa de um francês a quem ele prestara serviços nos tempos em que trabalhou em um cassino. Velho elegante o avô, que arriscava uns passos de dança, vivia sorrindo à toa e morreu dormindo, na boa, um ano antes do filho tombar com um tiro no peito, no meio daquele fogo cruzado de uns quatro anos atrás.
      Mas as pessoas em volta não conheciam sua história, nem sabiam o que fazer para evitar que em instantes desse com a cara no chão. Melhor era tentar chegar perto do muro ou do tronco de uma árvore. Também não podia esquecer de comprar os dois retroses de linha, uma vermelha e outra azul, senão a mãe ia ficar brava, porque tinha que terminar a encomenda de costura. Mas as pernas não passavam de dois fios de macarrão cozido. Como é que iria jogar lá pro final da tarde? Os moleques iam pensar que estava com medo do Requeijão, o zagueiro do outro time, só porque o atrevido cheirava cola e traficava a poeira. Deixava essas coisas pra eles que eram da mesma laia e se entendiam. Não via graça em nenhum desses bagulhos. Mesmo quando o Tijolo lhe ofereceu um troco para levar uma encomenda  no Morro do Chapéu. Não foi que não era trouxa e a mãe já cansou de falar que não quer ganhar dinheiro fácil e perder filho pra droga. O que tirava com as costuras ainda estava dando pro gasto. E por falar em dinheiro, as moedas para pagar as linhas estavam no bolso esquerdo. Precisava ter cuidado para não perder no meio dessa gente estranha velando sua tontura.
      Agora já não via mais nada. Nem sentiu quando o corpo tombou de uma vez no chão. Tampouco ouviu as sirenes da Polícia e do resgate dos Bombeiros, que atraíam ainda mais uma multidão curiosa e desnorteada, com a constância de cenas daquele tipo. Um soldado o envolveu num cobertor, percebendo seus calafrios, e colocou-o na maca junto com a mochila da escola. Os procedimentos de primeiros socorros eram os mesmos que ele já vira fazer em outras tantas pessoas. Agora era a sua vez de ser arrancado dos trilhos e jogado num roteiro sem nexo e sem autoria. Mas nada disso lhe doía, por obra da inconsciência.    
      Quando a mãe o encontrou, com a mesma roupa suja de sangue, os cabelos num grude só e moscas pousando na testa, ele tinha um braço estirado  por onde tomava soro. Horas tinham passado e a noite já começava, como a pelada contra o time do Requeijão. Ninguém sabia informar se a operação ainda seria naquele dia, porque não havia vagas e o jeito era esperar ali mesmo no corredor do hospital. O desespero a dominou, mas a enfermeira pediu que tivesse calma. Seu drama era mais um. Casos iguais ao de seu filho ocorriam diariamente. Ela não via pela televisão? Era como uma guerra civil, ainda acrescentou a enfermeira, antes de seguir adiante, fazendo-a lembrar-se da cena do filme que ela simplesmente chamava de “O Vento Levou” , porque não via sentido em dizer o nome com um “e” sobrando bem no começo. Gente e mais gente estropiada, cheia de dor e sem remédio e só um velho médico  para atender. Seu Vivier nem com isso contava. Já fazia um tempo que estava ao lado do filho e nenhum doutor tinha passado para lhe dar um conforto.
      Só Deus podia ajudar. Não era possível que uma criança saísse para a escola e não tivesse certeza de que iria retornar. Já com o marido foi o mesmo sobressalto. Agora não era justo que tivesse que passar por um sofrimento igual. Onde é que estavam os políticos naquela hora? E o dinheiro que descontavam cada vez que trocava um cheque do pagamento das costuras? E a contribuição do INSS? Tanto pagar e pagar e agora tinha que ver o filho morrendo à mingua sem ninguém pra socorrer? Isso não estava direito! Só dando uma de louca e começando a gritar. Quem sabe a televisão aparecesse e eles tivessem medo e viessem dar solução pro caso de seu menino infeliz.
      Impaciente de tudo, passou a entrar e sair das salas que davam para aquele corredor onde jogaram seu filho e tantos outros cidadãos, nas costas de quem eles deviam dar tapinhas em tempos de eleição. Nem uma alma sequer. Decerto por aquelas horas, os médicos estavam jantando, assim como o prefeito, o governador e o presidente. Quem iria se importar com o tamanho de sua dor?  Se seu menino estava com a cabeça aberta e cumpria uma pena por um crime que não cometeu? Os verdadeiros bandidos não estavam na cadeia, mas Vivier jazia preso naquela agonia sem fim.
      Só Deus daria um jeito. Se ele não desse, ninguém adivinharia a impotência que lhe dilacerava as entranhas. Pobre não nascera pra viver. Não podia ser verdade a crença de sua vizinha, de que a única saída é matar pra não morrer. Não foi o que planejou no dia em que o filho nasceu. Alguém haveria de ter um pouco de compaixão. Um inocente morrer, como o último dos miseráveis, só mesmo num país sem leis e sem dignidade, onde o dinheiro dos pobres ajuda a proteger os ralos da safadeza. Nossa Senhora valesse, que o coração de uma mãe não suportaria ver aquela heresia.
      Tudo o que seu filho queria, pensou, acariciando o bracinho livre da agulha, era jogar futebol, fazer sucesso e ganhar dinheiro. E assim ia poder ajudar uma porção de criancinhas e comprar um monte de balas. Do sabor que preferisse. Bala de coco, de alfenins, de leite, de chocolate... Ia morar no estrangeiro, longe desses tiroteios. Nunca mais precisaria esperar tanto por um médico e nem testemunhar que, quando um deles chegasse, já não tinha mais o que fazer, como agora, que ele só pôde perguntar se fora uma bala perdida.

                            ***************************************************



(**) Lídia Maria de Melo é jornalista, professora-universitária e autora do livro-reportagem Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós (relato da experiência de sua família com a ditadura militar e o navio que foi presídio político no Porto de Santos em 1964). Formada em Letras e em Jornalismo, é Mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), com pesquisa Neologismos em Pauta: Os Jornais com Disseminadores e Criadores de Novas Palavras. Em 2018, cursa o último ano de Direito na UniSantos.


(*) Bala Perdida venceu o XIX Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos-1997, categoria Literatura (http://premiovladimirherzog.org.br/busca-resultado-autor.asp?id=493&letra=L).
Registrado na Biblioteca Nacional, sob o n.° 287.594, livro 520, folha 254. 
Publicado no jornal A Tribuna, de Santos, na edição de 25 de outubro de 1998, na Ceciliana nº 9,  Revista de Estudos da Unisanta, em 1998, e no site da Faculdade de Artes e Comunicação, disponível em:  http://sites.unisanta.br/faac/espaco/balaperdida.html.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Há 50 anos, o sul-africano Christiaan Barnard tornava-se pioneiro em cirurgia de transplante de coração

 3 de dezembro de 1967. Há 50 anos, o cirurgião sul-africano Christiaan Barnard surpreendia o mundo ao realizar, na Cidade do Cabo, na África do Sul, o primeiro transplante de coração da história da humanidade. O feito foi notícia em toda a imprensa, radiofônica, televisiva e impressa.Em São Paulo, o Jornal da Tarde estampou na edição de 4 de dezembro de 1967 a seguinte manchete: "Coração de moça salva velho".
A moça era uma doadora de 24 anos, bancária. Seu nome foi identificado pelo Jornal da Tarde como Ann Darvall. Em outros veículos, consta Denise Darvall. 
Já o velho que recebeu seu coração era o comerciante Louis Washkansky, cuja idade foi publicada pela imprensa de modo impreciso. A informação variou de 53 a 55 anos. Na verdade, nem tão velho assim.
Washkansky morreu 18 dias depois da cirurgia, em consequência de uma infecção pulmonar. A ingestão de muitos medicamentos, para combater a rejeição ao novo órgão, acabou debilitando o sistema imunológico do paciente. Apesar disso, o coração funcionou perfeitamente até a sua morte.
Eu era criança quando o transplante aconteceu. E uma das primeiras coisas que aprendi com essa intervenção cirúrgica de repercussão mundial foi que na África também havia brancos. Essa descoberta curiosa na  minha visão infantil foi mencionada, anos depois, em meu livro "Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós", nas páginas 23 e 24 (clique nas imagens abaixo, para ler):


No ano posterior, foi a vez do cirurgião brasileiro Euryclides de Jesus Zerbini realizar o primeiro transplante cardíaco no Brasil. A cirurgia aconteceu no dia 25 de maio de 1968, no Hospital das Clínicas, em São Paulo. 
A edição do dia seguinte do Jornal da Tarde saiu com um "Extra" acima da manchete "Coração trocado vai bem".
O paciente transplantado era o boiadeiro João Ferreira da Cunha.
O doador, um homem de mais ou menos 30 anos, sem documentos, que morreu atropelado por um Vokswagen (Fusca) azul na estrada de Cotia. Um de seus rins foi recebido pela paciente Mercedes Scudeiro Leme.

domingo, 19 de novembro de 2017

Símbolo da Terra


                                                                           
                                Lídia Maria de Melo

             Neste teu dia solene,
             eu te saúdo, bandeira,
             em versos e questionamentos.
             Tua combinação de cores,
             verde-louro, alvianil,
             reflete as alegrias e dores
             deste recanto do mundo
             denominado Brasil,
             terra que ultimamente
             ziguezagueia
             em conflitos soturnos,
             em disputas arrepiantes.
             Quisera fossem debates estéreis.
             Não são.
             São temerários, lancinantes,
             capazes de aniquilar
             o acervo de um povo,
             como se não importassem os símbolos.
             como se não houvesse memórias.
             Minha bandeira,
             cada matiz que carregas
             traduz um sentido, um quinhão de nosso território.
             Tomara, então, que o patrimônio humano
             deste nosso país soberano
             saiba um dia compreender
             que o valor do teu verde, amarelo, azul e branco
             extrapola a representação gráfica,
             vai além de um simples pedaço de pano. 

(Iniciado em 19 de novembro de 2016 e concluído em 19 de novembro de 2017)

sábado, 29 de julho de 2017

Um sanhaço em meu jardim de apartamento


Sanhaço no aparelho de ar condicionado. (Fotos e vídeo: Lídia Maria de Melo)
Sábado de sol, um som insistente de pássaro entra pelo apartamento.
Sigo o cicio, já com o celular a postos, e avisto o emissor no jardim do terraço. Nem abro a porta de vidro da sala, para evitar o espanto e a fuga. Aciono a máquina e fotografo. 
Está no alto do aparelho de ar-condicionado, perto da samambaia e das orquídeas. Pela cor da plumagem, reconheço: é um sanhaço. Do mesmo tipo de um filhote que em um dia de chuva pousou por aqui, no parapeito da área de serviço e da cozinha
Quando comecei a filmar, o bichinho de hoje nem se importou. Mas, quando ensaiei abrir a vidraça, ele bateu asas e foi piar em outro esconderijo. Bem provável que no arvoredo em frente ao prédio. Precisamos de mais áreas arborizadas na cidade, para nos deleitar com cenas como essas com mais frequência. 

À tarde, decidi ir ao shopping. Assim que saí do prédio onde moro e cheguei à calçada, como estava a pé, pude perceber uma coisa que não notaria se estivesse de carro. O arvoredo em frente estava sendo podado. Uma motosserra derrubava galhos e galhos de árvores.
Foi aí que entendi o piado insistente do sanhaço que me visitou de manhã. Devem ter derrubado o galho onde estava o ninho dele. Que pena!
Por falar nisso, uma dúvida anda a me atormentar: onde os passarinhos bebem água em uma cidade que não tem mais fontes naturais na área urbana? 
Vejam as fotos, assistam ao filme.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Rota cruzada

(Lídia Maria de Melo)

Por que é que eu sempre te encontro?
Por que tua boca  não sai
de tudo o que posso ver
na tela da minha tevê?
O toque do telefone te atormenta,
quando estamos sozinhos, e eu sei.
Não devias ligar.
No saldo,
vale o passeio na mata,
meus dedos na tua mão,
um ouvido na cachoeira
e o outro no coração.
As caixas de chocolate
e  teus carinhos macios
na pele das minhas costas.
O teu jeito meio moleque dengoso
de grudar no meu pescoço
e se escanchar com as pernas
em torno de minha cintura.
Podem transcorrer uns mil anos,
ninguém vai ultrapassar
as nossas intimidades.
Teu gosto na minha boca,
a tua boca em mim,
e eu me desintegrando,
entregue no teu deleite.
Há algo além de estranho.
Há muito mais do que o acaso
na nossa rota cruzada
no mesmo tempo e espaço.
É muito mais que luxúria.
Transcende o limite do lógico.
Prefiro chamar de carinho.
De ti já vem outro nome.
Não penso em rotular,
me dou permissão de sentir.
Uma história deixa rastros.
Não vou insistir, nem brigar.
Pode ficar em sossego,
toda esta trajetória
é nosso jeito de amar.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Dia Mundial de Luta Contra o Lúpus

Hoje é Dia Mundial de Luta contra o Lúpus.
Para quem não sabe, em latim, "lupus" significa "lobo". Na classificação médica, lúpus é uma doença autoimune, da espécie reumática, que não tem cura, mas pode ser controlada. 

Dos 15 aos 36 anos, convivi intimamente com essa doença e seus efeitos colaterais.
Não sei se foi algum caçador, como o do conto de Chapeuzinho Vermelho, que entrou em ação, ou se foi obra divina, mas meu lúpus está em remissão há muitos anos e, desde então, fiquei livre de tomar cortisona diariamente. 

Neste momento, não posso mais escrever, mas neste blog há alguns textos sobre o assunto. Deixo os links abaixo. 
É importante falar sobre o tema, para dar alento a quem sofre com esse mal.
De minha parte, afirmo: é possível vencer o lúpus, mesmo que às vezes a gente quase acredite que não.


Leia mais:


domingo, 30 de abril de 2017

Atentado da extrema direita no Riocentro completa 36 anos hoje

Lídia Maria de Melo

Anúncio do show ilustrado por Ziraldo
Hoje, por volta das 21 horas, completam-se 36 anos do Atentado do Riocentro, pavilhão localizado na Barra da Tijuca, na cidade do Rio de Janeiro.
Naquela noite de 30 de abril de 1981, realizava-se um show de música popular brasileira para 10 mil pessoas, em comemoração ao Dia do Trabalho, que transcorreria no dia seguinte, 1.º de maio.
Cerca de 30 cantores participavam da festa. Elba Ramalho cantava quando a bomba explodiu em um Puma, do lado de fora
O Brasil ainda vivia uma ditadura militar, mas já se encaminhava para um processo de abertura política. A Lei de Anistia havia sido assinada em agosto de 1979, o bipartidarismo já havia chegado ao fim e a sociedade se organizava em torno da retomada da eleição para presidente da República. A extrema direita não se conformava com a possibilidade de redemocratização do país. Assim, organizava atentados para atribuí-los à esquerda. Dessa maneira, justificaria um retrocesso e a permanência dos militares no poder.
A ação só não obteve êxito, porque algo saiu errado. A bomba que deveria matar as pessoas que estavam no Riocentro explodiu dentro de um automóvel Puma, no colo do sargento do Exército Guilherme Pereira do Rosário, de 35 anos, conhecido como "agente Wagner", do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna), órgão subordinado ao Exército.
O sargento morreu na hora, com o corpo destroçado. Seu companheiro de ação, o capitão Wilson Luís Chaves Machado, de 33 anos, alocado no mesmo destacamento, ficou gravemente ferido, com as vísceras de fora.
Bomba explodiu antes, dentro do Puma 
No bolso da calça do sargento havia uma lista com nomes verdadeiros de civis e militares de extrema direita envolvidos com torturas e espionagem.
Anos depois, veio a público a informação de que, dentro do pavilhão, dez dos 14 portões estavam fechados, o que impediria a saída das pessoas, caso uma bomba explodisse lá dentro. Também havia sido programada uma explosão no setor de energia elétrica, para deixar o Riocentro às escuras.


Deputado insinua que agentes do Exército eram os responsáveis
ATENTADOS QUE SÉRGIO MACACO EVITOU
Durante a ditadura militar, a extrema direita realizou outros atentados com o intuito de incriminar a esquerda e justificar ações contra seus integrantes.
Em 1968, um desses atos não foi realizado graças ao capitão paraquedista Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho, conhecido como Sérgio Macaco. Alocado no esquadrão Para-Sar, unidade aeroterrestre de salvamento da Força Aérea Brasileira, Sérgio Macaco recebeu ordens do brigadeiro João Paulo Burnier, chefe de gabinete do Ministério da Aeronáutica, para colocar bombas em locais estratégicos no Rio de Janeiro, como Loja Sears, Citibank e embaixada norte-americana. Enquanto ele e sua equipe socorreriam as vítimas de helicóptero, outras bombas deveriam ser acionadas por controle remoto na Represa de Ribeirão das Lajes, para acabar com a água, e no Gasômetro, em São Cristóvão. Esses atos deveriam ser atribuídos aos integrantes de organizações de esquerda, que eram chamados de "subversivos".
O capitão Sérgio Macaco não acatou as ordens de Burnier e ainda denunciou-o. Apesar de as denúncias terem chegado ao presidente da República de então, Arthur da Costa e Silva, Burnier foi absolvido e Sérgio Macaco, transferido para Recife (PE). Pouco tempo depois, foi cassado e expulso da Aeronáutica. Somente anos e anos depois, teve seu nome reabilitado.
OUTRAS AÇÕES DA DIREITA
Ainda em 1968, integrantes do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) invadiram o Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, e espancaram o elenco da peça Roda Viva, de Chico Buarque, que estava sendo encenada.
No Rio de Janeiro, o Teatro Opinião foi destruído pelo CCC com bombas e coquetéis molotov.
Em 1976, uma bomba explodiu parte do sétimo andar do prédio da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). No mesmo dia, outro artefato foi lançado na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), no Rio. No mês seguinte, Dom Adriano Hipólito, bispo de Nova Iguaçu, foi sequestrado e torturado.
Em 1980, bancas de jornais foram incendiadas em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, porque vendiam jornais alternativos.
Em 27 de agosto de 1980, como parte da Operação Cristal, uma carta-bomba destinada ao presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Eduardo Seabra Fagundes, matou na hora a secretária Lyda Monteiro da Silva. O funcionário José Ramiro dos Santos também ficou ferido no atentado.
No mesmo dia, outras duas cartas-bombas foram entregues e detonadas no Rio de Janeiro. Uma, no gabinete do vereador Antônio Carlos de Carvalho (PMDB), deixando seis pessoas feridas, e outra, na sede do jornal Tribuna da Imprensa.
Os autores dos atentados de 1980 envolveram-se no do Riocentro, meses depois, mas nunca foram punidos.
HOMENAGEM
A mesa de dona Lyda Monteiro da Silva, com as marcas da bomba, está exposta no Memorial da OAB, em Brasília. O nome dela foi dado ao Museu Histórico da entidade.

sábado, 4 de março de 2017

Aloha! Canoas havaianas partem de Santos para o 14.º Desafio Volta à Ilha de Santo Amaro

Lídia Maria de Melo
Antes da largada, equipes rezaram e soltaram gritos de guerra e aloha
(texto e fotos)
Hoje de manhã, levei minhas sandálias havaianas para assistirem à largada do 14.º Desafio Volta à Ilha de Santo Amaro de Canoas Havaianas, na Praia da Aparecida, em frente ao Colégio Escolástica Rosa, em Santos.
Os canoístas foram para o mar às 10 horas, depois que cada equipe deu seu grito de guerra e todos os participantes, de mãos dadas, formaram um círculo, rezaram em silêncio e, por fim, soltaram em uníssono um "aloha", saudação do povo havaiano, que tem significado de "amor", "afeto", "paz", "compaixão", "misericórdia" ou, simplesmente, "olá" e "tchau".
31 equipes participam do Desafio Volta à Ilha de Santo Amaro

Largada na Praia da Aparecida, em Santos
Durante a partida, o Porto de Santos permaneceu fechado. As embarcações de grande porte, como os navios, não puderam entrar ou sair do canal portuário, para permitir a passagem das canoas de 31 equipes participantes, além dos barcos e caiaques de apoio. 
As equipes são procedentes de vários estados brasileiros (Bahia tem cinco grupos) e de países estrangeiros, como Chile e Argentina. A prova inclui categoria masculina, feminina, mista e máster.
Largada na Praia da Aparecida, em Santos
O percurso da prova tem 75 Km, com trechos de mar e rio. Cada equipe é formada por nove atletas. Seis permanecem remando na canoa e três ficam em barco de apoio, para fazerem  revezamento com os remadores. A troca de atletas é realizada com as embarcações em movimento. As remadas são ininterruptas.
Ponto de partida e chegada, Praia da Aparecida
Depois da largada na Praia da Aparecida, as canoas seguiram costeando a Ilha de Santo Amaro, passando pelas praias de Guarujá, até conseguirem alcançar o Canal de Bertioga, depois o Canal do Estuário, no Porto de Santos, e, por fim, encerrarem no ponto de partida, em Santos.
A competição é organizada pelo canoísta Fábio Paiva e conta com um extenso rol de patrocinadores.
Durante a largada, uma cena chamou a atenção. Enquanto os canoístas desafiavam as ondas com remadas incessantes, na areia da praia, sob um sol já bastante forte, o ultramaratonista Valmir Nunes arrastava outros atletas para a corrida. Cada qual com seu esporte.
Ultramaratonista Valmir Nunes, sem camisa.

Outro ponto que não passou despercebido foi o uso de drones na cobertura da competição. Ainda na  na faixa de areia, o locutor chegou a advertir para o risco de acidente entre os equipamentos.
Na foto abaixo, é possível ver um dos drones.
Drone (dentro do círculo laranja) acompanha a largada

Fábio Paiva
O organizador do Desafio Volta à Ilha de Santo Amaro, o canoísta e multimedalhista Fábio Paiva, é introdutor da canoagem oceânica no Brasil.
Eu o conheci, profissionalmente, em 1990, quando o entrevistei para o jornal A Tribuna, de Santos, onde atuei por 23 anos, de 1988 a 2011, como repórter, subeditora e editora, e para o qual ainda colaboro esporadicamente.
Paiva, que também é engenheiro, havia projetado caiaques para dois fotógrafos publicitários, Vito D´Aléssio e Renato Dutra, que participaram da expedição pioneira batizada de Projeto Xingu, em 1989. As embarcações de fibra de vidro e resina de poliéster foram desenhadas e construídas na oficina Opium Competition Ltda., que na época Paiva mantinha no Bairro do Paquetá, em Santos.
Minha reportagem sobre o Projeto Xingu saiu publicada na edição de 8 de janeiro de 1990. Veja reprodução abaixo:

Fábio Paiva desenhou e construiu os caiaques
usados no expedição Projeto Xingu





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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

"Entre isso e aquilo" ou " entre isso ou aquilo"?

Outro dia, uma jornalista que foi minha aluna, enviou-me esta pergunta sobre o emprego da preposição "entre":
Professora, escrevi um texto usando ENTRE: "Quem tiver contas a pagar vai ter que escolher entre colocar comida na mesa e honrar os compromissos financeiros."
Aí o editor corrigiu: "Quem tiver contas a pagar vai ter que escolher entre colocar comida na mesa ou honrar os compromissos financeiros".
Fiquei na dúvida! Entre isso e aquilo OU Entre isso ou aquilo?
                                                                 ***
Esclareci a questão com esta resposta:
Uma das acepções da preposição "entre" é "a meio de" (dois espaços, dois tempos, duas situações etc).
Dessa forma, citando um exemplo do dicionarista Antônio Houaiss, podemos dizer: "O livro estava entre a mesa e a estante".  E ainda: "Está em dúvida entre a primavera e o outono".
Com base nesses enunciados, referendados por um dos maiores filólogos brasileiros, podemos concluir que você escreveu corretamente.
Seu editor deve ter se confundido com a expressão "ou isso ou aquilo" (sem "entre"). Utilizando a preposição "entre", o correto é como você usou, ou seja, com a conjunção "e".
Para empregar o "ou", o enunciado deve excluir o "entre". Desta forma : "Quem tiver contas a pagar vai ter que escolher: (DOIS PONTOS) ou colocar comida na mesa, (VÍRGULA) ou honrar os compromissos financeiros".
Reforçando, o correto é "entre isso e aquilo". 
Um abraço.


quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Para sempre Dom Paulo Evaristo Arns

Soube da morte de Dom Paulo Evaristo Arns no início da tarde de ontem.
Apesar de ele ter idade avançada e de que um dia todos nós iremos, lamentei e lamento muito sua partida.
Como cardeal arcebispo de São Paulo, Dom Paulo teve uma atuação importantíssima na defesa dos direitos dos perseguidos pela ditadura militar no Brasil. Salvou muitas vidas.
Em 1985, assinou o livro "Brasil, Nunca Mais", porque a equipe que o elaborou e desenvolveu o projeto de mesmo nome não poderia se identificar, pois corria risco de vida. O primeiro exemplar vendido em Santos eu comprei, na então Livraria Atlântica, depois Siciliano e hoje, Saraiva, na Avenida Ana Costa, no Gonzaga.
No prefácio desse livro, a respeito da tortura, morte e desaparecimento de presos políticos, ele escreveu: "Não há ninguém na Terra que consiga descrever a dor de quem viu um ente querido desaparecer atrás das grades da cadeia, sem mesmo poder adivinhar o que lhe aconteceu".
Dom Paulo já conquistou um lugar no céu há muito tempo. Vai se encontrar com a irmã. Dra. Zilda Arns.
Para sempre Dom Paulo.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Ferreira Gullar morreu. Viva Ferreira Gullar!

Ferreira Gullar morreu. Viva o poeta Ferreira Gullar! 
Parafraseando Guimarães Rosa, um poeta não morre, fica encantado. 
A poesia de Ferreira Gullar estará sempre me rodeando.
Quando eu estava no 7º. semestre de Jornalismo, na Faculdade de Comunicação de Santos, da Sociedade Visconde de São Leopoldo, atualmente UniSantos, o antigo prédio da Facos, na Pompeia, era de blocos e concreto aparente. Achávamos que era muito cinza e resolvemos pintar nossa classe. Eu participei da pintura interna e depois escrevi, com tinta amarela, no corredor, na parede externa, ao lado da porta de entrada da sala, um trecho do poema "No Mundo Há Muitas Armadilhas". 
Ferreira Gullar era um homem feio, de cabelo liso e comprido, que soube lidar com o exílio político, com as instabilidades de dois filhos esquizofrênicos. 
Tinha uma mente de vanguarda, mesmo aos 86 anos. A obra de Ferreira Gullar estará sempre comigo. Valeu, poeta!

NO MUNDO HÁ MUITAS ARMADILHAS

No mundo há muitas armadilhas
e o que é armadilha pode ser refúgio
e o que é refúgio pode ser armadilha
Tua janela por exemplo
aberta para o céu
e uma estrela a te dizer que o homem é nada
ou a manhã espumando na praia
a bater antes de Cabral, antes de Tróia
(há quatro séculos Tomás Bequimão
tomou a cidade, criou uma milícia popular
e depois foi traído, preso, enforcado)
No mundo há muitas armadilhas
e muitas bocas a te dizer
que a vida é pouca
que a vida é louca
E por que não a Bomba? te perguntam.
Por que não a Bomba para acabar com tudo, já
que a vida é louca?
Contudo, olhas o teu filho, o bichinho
que não sabe
que afoito se entranha à vida e quer
a vida
e busca o sol, a bola, fascinado vê
o avião e indaga e indaga
A vida é pouca
a vida é louca
mas não há senão ela.
E não te mataste, essa é a verdade.
Estás preso à vida como numa jaula.
Estamos todos presos
nesta jaula que Gagárin foi o primeiro a ver
de fora e nos dizer: é azul.
E já o sabíamos, tanto
que não te mataste e não vais
te matar
e aguentaras até o fim.
O certo é que nesta jaula há os que têm
e os que não têm
há os que têm tanto que sozinhos poderiam
alimentar a cidade
e os que não têm nem para o almoço de hoje
A estrela mente
o mar sofisma. De fato,
o homem está preso à vida e precisa viver
o homem tem fome
e precisa comer
o homem tem filhos
e precisa criá-los
Há muitas armadilhas no mundo e é preciso quebrá-las.


domingo, 20 de novembro de 2016

Pé de cidreira, um resgate de carinho

            



                                                     
 Lídia Maria de Melo 
(fotos e texto)

No fundo do quintal 
da casa de minha infância, 
havia um pé de cidreira.
Para ele, acorríamos
em busca de umas folhas
que aplacariam as dores
de nosso estômago ou intestino
depois de maceradas
e mergulhadas em água fervilhante.
Era um pé de uns sessenta centímetros
de altura, com cheiro doce e acolhedor.
Às vezes, nos dava flores miúdas
e perfumadas,
atração auspiciosa para abelhas e passarinhos.
Um grande companheiro de infância.
Fiel e protetor.
Hoje, que o tempo correu,
minha infância vive em um cofre de sonhos
e aquela casa nem existe mais,
a não ser nas gavetas da memória
e nos instantes das fotografias,
um novo pé de cidreira
acompanha meu dia a dia
neste jardim suspenso
de terraço de apartamento.
Também é atração de pássaros
com seu odor adocicado
e as florzinhas ocasionais.
Para matar a saudade,
mesmo sem dor de barriga,
nem estomacal,
 volto a fazer o chá que
minha mãe me ensinou.
É um resgate de carinho,
como canção de ninar,
um jeito de vencer o tempo
e reviver emoções 
ao menos pelo paladar.