terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Como um poeta. Meu conto premiado pela Unicamp

Em 2006, participei do concurso de contos que a Unicamp fez para comemorar seus 40 anos de fundação. Quase 700 autores do País participaram. A comissão julgadora escolheu 40 para publicar uma antologia. Meu conto Como Um Poeta foi um dos selecionados. No final de 2007, a Editora da Unicamp  lançou a antologia  Contos _ Unicamp Ano 40, com 38 dos 40 selecionados. Acho que dois não puderam ser publicados por descumprimento do regulamento do concurso. Hoje, decidi publicar aqui o meu conto, para que mais pessoas possam lê-lo:


                            Como um poeta
                                         
        (Lídia Maria de Melo)      
       
         Zefa é mesmo que um poeta. Finge. Usa calça jeans e blusa de  cambraia com flores miúdas bordadas na gola. Tem ares de freira,  mas fuma. Quando a vejo na rua ou no supermercado escolhendo produtos para abastecer a despensa da família, imagino que poderia ser casada com um senhor de meia-idade, um pouco mais velho que ela, barriguinha saliente sob a camisa de listras suaves e verticais, mantidas por dentro da calça de tergal. Um homem de óculos, meio calvo combinaria com ela. Se tivesse sotaque português, também. Se trabalhasse como caixa de banco, dono de açougue ou até mesmo fosse portuário, desses bem orgulhosos de seu ofício. Aposentado, talvez, ou já na contagem do tempo para entrar com o pedido na Previdência Social. Educado, a ponto de ceder o lugar às senhoras na condução...
                     Zefa merecia um companheiro distinto.
                    Quando ela abre a porta de seu apartamento térreo, cumprimenta a vizinhança com um sorriso e uma voz meiga de simpatia, para todo mundo pensar que não é com ela que o marido grita, não é ela que ele xinga e nem é nela que ele só falta bater. Se é que não bate, porque ela se cala e ninguém ouve nem vê, embora o corredor central que separa os dois prédios do condomínio facilite a subida do som para todos os lados.
                     Zefa deve ter mesmo, sem saber, uma personalidade de poeta, de atriz, que dissimula e convence. Aqueles impropérios expostos, a ferir a dignidade até dos homens dos apartamentos de lado, de cima e de frente, não podem ser mesmo com ela. Aquele ser atingido por vômitos de expressões desprezíveis, como ‘‘monte de bosta’’, ‘‘imbecil’’, ‘‘safada’’, não é ela, aquela mulher de mais de meia-idade, com varizes nas pernas, óculos de grau, fala de interior, que zela pela limpeza da casa, oferece café para a faxineira do prédio e préstimos a quem precisa de ajuda. Uma manhã de segunda-feira, ela atendeu pelo interfone um pedinte, com a mesma delicadeza com que trata o carteiro, o coletor de lixo, o filho e esse que deve ser seu marido, mas a destrata tanto que é como se não fosse.
                    Toda vez que acordo sobressaltada com os xingamentos vociferados por aquele homem alto, vermelho e olhar indecente, que ela chama de Gaúcho e que é mais gentil com a faxineira do que com a mãe do filho dele, fico a me perguntar por que ela suporta tamanha humilhação. Será que guarda algum segredo tão incontável que a faça submeter-se àquela autoflagelação?
                     As vidraças de suas janelas brilham, o piso reflete a limpeza e os quadros ornamentam com harmonia as paredes de sua sala, entrevistas pela cortina semi-aberta. E em troca da presteza de seus gestos, ela ouve invariavelmente todos os dias, às vezes de manhã, ao meio-dia, à tarde, à noite ou de madrugada, ofensas, insultos, descalabros, que incluem um sonoro e escandido: _ Vá tomar no seu cu.
                     Como se ela fosse um moleque com quem aquele ser que nem ouso chamar de homem disputasse uma partida de futebol, num campo de várzea.
                     Um amigo, com quem desabafei sobre essa estranha relação, supôs que deve ser o jeito que ambos encontraram para manter o estado de gozo. Achei cínica demais a interpretação. Mas não disponho de um refinamento capaz de me fazer entender. Será que ela inclui entre as suas obrigações a entrega de seu corpo àquele que nem posso, injustamente, classificar como animal?
                     Um dia desses, ele a enxotou de casa, esbravejando que tudo que estava ali era dele. Chamou-a de burra, de animal, de idiota, de imbecil (sua ofensa preferida, ao lado de ‘‘monte de bosta’’ e ‘‘vá tomar no seu cu’’). Dessa vez, não gritava. Parecia atirar cacos de vidro pela boca, na direção da mulher. Cada insulto era uma faca cravada, com o sangue escorrendo lívido, quente e cru. Uma crueldade mordaz. A cadela que eles tinham e morreu no mês de setembro recebia melhor tratamento. Depois de uns 15 minutos, que levaram quase toda a vizinhança à janela para espiar e ver se daquela vez Zefa reagia e consumava uma tragédia, mais do que previsível, ela abriu a porta, arrumada com seu jeito simples, mas de cabelo lavado, banhada, recendendo um cheiro de talco ou colônia comprada por catálogo em domicílio.  Exibia uma dignidade esculpida pra nunca mais apagar. Lá dentro ele ainda berrava: ‘‘Vai sua ordinária, o banco já vai fechar. Imbecil! Sua burra! Vagabunda! Su-a va-di-a!’’
                     Não era nada com ela, que passou por mim, perto do portão de entrada, me olhou, sorriu e desejou boa tarde.
                     Do alto de minha indignação, ainda pude chegar perto da porta do apartamento deles a tempo de ver o tal marido dela sorrir para a faxineira do prédio e perguntar em voz baixa e gentil: _ Precisa de ajuda?
                     Quase regurgitei o almoço. E uma dúvida tomou conta do resto do meu dia e ainda me atormenta toda vez que a cena de insultos se repete. O que terá havido na vida dessa mulher que a fez perder o brio, a auto-estima?
                     Não sei a resposta, mas, com a mesma regularidade com que ouve esses desacatos, ela diariamente se levanta, abre a porta da rua, cumprimenta os vizinhos e vai comprar pão e leite, carne para o almoço e o lanche da tarde.  Também sai para ir ao banco, pôr o saco de lixo na rua e conversar no portão de entrada do prédio.
                    Zefa parece seguir, do jeito que lhe ensinaram, o ritual da gentileza, da servidão, da submissão. Da obediência. Toda a vizinhança, inclusive eu, está aguardando o dia em que acontecerá uma desgraça, no caso dela voltar a si e resolver vingar tudo o que tem reprimido. Mas o sangue de Zefa não ferve. Talvez seja de barata. Ou de um verme. Não vibra, nem se exalta. Não reage. Não entra em combustão, como se não houvesse mais jeito. E ele não pára nunca, porque sabe que jamais se livrará dela.
                     Zefa não se rebela, cumpre a sina. Parece as pontas dos dedos veteranos de um tocador de viola. Já criou calo. Não sente mais dor.  

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