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sábado, 2 de dezembro de 2017

Há 50 anos, o sul-africano Christiaan Barnard tornava-se pioneiro em cirurgia de transplante de coração

 3 de dezembro de 1967. Há 50 anos, o cirurgião sul-africano Christiaan Barnard surpreendia o mundo ao realizar, na Cidade do Cabo, na África do Sul, o primeiro transplante de coração da história da humanidade. O feito foi notícia em toda a imprensa, radiofônica, televisiva e impressa.Em São Paulo, o Jornal da Tarde estampou na edição de 4 de dezembro de 1967 a seguinte manchete: "Coração de moça salva velho".
A moça era uma doadora de 24 anos, bancária. Seu nome foi identificado pelo Jornal da Tarde como Ann Darvall. Em outros veículos, consta Denise Darvall. 
Já o velho que recebeu seu coração era o comerciante Louis Washkansky, cuja idade foi publicada pela imprensa de modo impreciso. A informação variou de 53 a 55 anos. Na verdade, nem tão velho assim.
Washkansky morreu 18 dias depois da cirurgia, em consequência de uma infecção pulmonar. A ingestão de muitos medicamentos, para combater a rejeição ao novo órgão, acabou debilitando o sistema imunológico do paciente. Apesar disso, o coração funcionou perfeitamente até a sua morte.
Eu era criança quando o transplante aconteceu. E uma das primeiras coisas que aprendi com essa intervenção cirúrgica de repercussão mundial foi que na África também havia brancos. Essa descoberta curiosa na  minha visão infantil foi mencionada, anos depois, em meu livro "Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós", nas páginas 23 e 24 (clique nas imagens abaixo, para ler):


No ano posterior, foi a vez do cirurgião brasileiro Euryclides de Jesus Zerbini realizar o primeiro transplante cardíaco no Brasil. A cirurgia aconteceu no dia 25 de maio de 1968, no Hospital das Clínicas, em São Paulo. 
A edição do dia seguinte do Jornal da Tarde saiu com um "Extra" acima da manchete "Coração trocado vai bem".
O paciente transplantado era o boiadeiro João Ferreira da Cunha.
O doador, um homem de mais ou menos 30 anos, sem documentos, que morreu atropelado por um Vokswagen (Fusca) azul na estrada de Cotia. Um de seus rins foi recebido pela paciente Mercedes Scudeiro Leme.

domingo, 19 de novembro de 2017

Símbolo da Terra


                                                                           
                                Lídia Maria de Melo

             Neste teu dia solene,
             eu te saúdo, bandeira,
             em versos e questionamentos.
             Tua combinação de cores,
             verde-louro, alvianil,
             reflete as alegrias e dores
             deste recanto do mundo
             denominado Brasil,
             terra que ultimamente
             ziguezagueia
             em conflitos soturnos,
             em disputas arrepiantes.
             Quisera fossem debates estéreis.
             Não são.
             São temerários, lancinantes,
             capazes de aniquilar
             o acervo de um povo,
             como se não importassem os símbolos.
             como se não houvesse memórias.
             Minha bandeira,
             cada matiz que carregas
             traduz um sentido, um quinhão de nosso território.
             Tomara, então, que o patrimônio humano
             deste nosso país soberano
             saiba um dia compreender
             que o valor do teu verde, amarelo, azul e branco
             extrapola a representação gráfica,
             vai além de um simples pedaço de pano. 

(Iniciado em 19 de novembro de 2016 e concluído em 19 de novembro de 2017)

sábado, 29 de julho de 2017

Um sanhaço em meu jardim de apartamento


Sanhaço no aparelho de ar condicionado. (Fotos e vídeo: Lídia Maria de Melo)
Sábado de sol, um som insistente de pássaro entra pelo apartamento.
Sigo o cicio, já com o celular a postos, e avisto o emissor no jardim do terraço. Nem abro a porta de vidro da sala, para evitar o espanto e a fuga. Aciono a máquina e fotografo. 
Está no alto do aparelho de ar-condicionado, perto da samambaia e das orquídeas. Pela cor da plumagem, reconheço: é um sanhaço. Do mesmo tipo de um filhote que em um dia de chuva pousou por aqui, no parapeito da área de serviço e da cozinha
Quando comecei a filmar, o bichinho de hoje nem se importou. Mas, quando ensaiei abrir a vidraça, ele bateu asas e foi piar em outro esconderijo. Bem provável que no arvoredo em frente ao prédio. Precisamos de mais áreas arborizadas na cidade, para nos deleitar com cenas como essas com mais frequência. 

À tarde, decidi ir ao shopping. Assim que saí do prédio onde moro e cheguei à calçada, como estava a pé, pude perceber uma coisa que não notaria se estivesse de carro. O arvoredo em frente estava sendo podado. Uma motosserra derrubava galhos e galhos de árvores.
Foi aí que entendi o piado insistente do sanhaço que me visitou de manhã. Devem ter derrubado o galho onde estava o ninho dele. Que pena!
Por falar nisso, uma dúvida anda a me atormentar: onde os passarinhos bebem água em uma cidade que não tem mais fontes naturais na área urbana? 
Vejam as fotos, assistam ao filme.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Rota cruzada

(Lídia Maria de Melo)

Por que é que eu sempre te encontro?
Por que tua boca  não sai
de tudo o que posso ver
na tela da minha tevê?
O toque do telefone te atormenta,
quando estamos sozinhos, e eu sei.
Não devias ligar.
No saldo,
vale o passeio na mata,
meus dedos na tua mão,
um ouvido na cachoeira
e o outro no coração.
As caixas de chocolate
e  teus carinhos macios
na pele das minhas costas.
O teu jeito meio moleque dengoso
de grudar no meu pescoço
e se escanchar com as pernas
em torno de minha cintura.
Podem transcorrer uns mil anos,
ninguém vai ultrapassar
as nossas intimidades.
Teu gosto na minha boca,
a tua boca em mim,
e eu me desintegrando,
entregue no teu deleite.
Há algo além de estranho.
Há muito mais do que o acaso
na nossa rota cruzada
no mesmo tempo e espaço.
É muito mais que luxúria.
Transcende o limite do lógico.
Prefiro chamar de carinho.
De ti já vem outro nome.
Não penso em rotular,
me dou permissão de sentir.
Uma história deixa rastros.
Não vou insistir, nem brigar.
Pode ficar em sossego,
toda esta trajetória
é nosso jeito de amar.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Dia Mundial de Luta Contra o Lúpus

Hoje é Dia Mundial de Luta contra o Lúpus.
Para quem não sabe, em latim, "lupus" significa "lobo". Na classificação médica, lúpus é uma doença autoimune, da espécie reumática, que não tem cura, mas pode ser controlada. 

Dos 15 aos 36 anos, convivi intimamente com essa doença e seus efeitos colaterais.
Não sei se foi algum caçador, como o do conto de Chapeuzinho Vermelho, que entrou em ação, ou se foi obra divina, mas meu lúpus está em remissão há muitos anos e, desde então, fiquei livre de tomar cortisona diariamente. 

Neste momento, não posso mais escrever, mas neste blog há alguns textos sobre o assunto. Deixo os links abaixo. 
É importante falar sobre o tema, para dar alento a quem sofre com esse mal.
De minha parte, afirmo: é possível vencer o lúpus, mesmo que às vezes a gente quase acredite que não.


Leia mais:


domingo, 30 de abril de 2017

Atentado da extrema direita no Riocentro completa 36 anos hoje

Lídia Maria de Melo

Anúncio do show ilustrado por Ziraldo
Hoje, por volta das 21 horas, completam-se 36 anos do Atentado do Riocentro, pavilhão localizado na Barra da Tijuca, na cidade do Rio de Janeiro.
Naquela noite de 30 de abril de 1981, realizava-se um show de música popular brasileira para 10 mil pessoas, em comemoração ao Dia do Trabalho, que transcorreria no dia seguinte, 1.º de maio.
Cerca de 30 cantores participavam da festa. Elba Ramalho cantava quando a bomba explodiu em um Puma, do lado de fora
O Brasil ainda vivia uma ditadura militar, mas já se encaminhava para um processo de abertura política. A Lei de Anistia havia sido assinada em agosto de 1979, o bipartidarismo já havia chegado ao fim e a sociedade se organizava em torno da retomada da eleição para presidente da República. A extrema direita não se conformava com a possibilidade de redemocratização do país. Assim, organizava atentados para atribuí-los à esquerda. Dessa maneira, justificaria um retrocesso e a permanência dos militares no poder.
A ação só não obteve êxito, porque algo saiu errado. A bomba que deveria matar as pessoas que estavam no Riocentro explodiu dentro de um automóvel Puma, no colo do sargento do Exército Guilherme Pereira do Rosário, de 35 anos, conhecido como "agente Wagner", do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna), órgão subordinado ao Exército.
O sargento morreu na hora, com o corpo destroçado. Seu companheiro de ação, o capitão Wilson Luís Chaves Machado, de 33 anos, alocado no mesmo destacamento, ficou gravemente ferido, com as vísceras de fora.
Bomba explodiu antes, dentro do Puma 
No bolso da calça do sargento havia uma lista com nomes verdadeiros de civis e militares de extrema direita envolvidos com torturas e espionagem.
Anos depois, veio a público a informação de que, dentro do pavilhão, dez dos 14 portões estavam fechados, o que impediria a saída das pessoas, caso uma bomba explodisse lá dentro. Também havia sido programada uma explosão no setor de energia elétrica, para deixar o Riocentro às escuras.


Deputado insinua que agentes do Exército eram os responsáveis
ATENTADOS QUE SÉRGIO MACACO EVITOU
Durante a ditadura militar, a extrema direita realizou outros atentados com o intuito de incriminar a esquerda e justificar ações contra seus integrantes.
Em 1968, um desses atos não foi realizado graças ao capitão paraquedista Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho, conhecido como Sérgio Macaco. Alocado no esquadrão Para-Sar, unidade aeroterrestre de salvamento da Força Aérea Brasileira, Sérgio Macaco recebeu ordens do brigadeiro João Paulo Burnier, chefe de gabinete do Ministério da Aeronáutica, para colocar bombas em locais estratégicos no Rio de Janeiro, como Loja Sears, Citibank e embaixada norte-americana. Enquanto ele e sua equipe socorreriam as vítimas de helicóptero, outras bombas deveriam ser acionadas por controle remoto na Represa de Ribeirão das Lajes, para acabar com a água, e no Gasômetro, em São Cristóvão. Esses atos deveriam ser atribuídos aos integrantes de organizações de esquerda, que eram chamados de "subversivos".
O capitão Sérgio Macaco não acatou as ordens de Burnier e ainda denunciou-o. Apesar de as denúncias terem chegado ao presidente da República de então, Arthur da Costa e Silva, Burnier foi absolvido e Sérgio Macaco, transferido para Recife (PE). Pouco tempo depois, foi cassado e expulso da Aeronáutica. Somente anos e anos depois, teve seu nome reabilitado.
OUTRAS AÇÕES DA DIREITA
Ainda em 1968, integrantes do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) invadiram o Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, e espancaram o elenco da peça Roda Viva, de Chico Buarque, que estava sendo encenada.
No Rio de Janeiro, o Teatro Opinião foi destruído pelo CCC com bombas e coquetéis molotov.
Em 1976, uma bomba explodiu parte do sétimo andar do prédio da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). No mesmo dia, outro artefato foi lançado na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), no Rio. No mês seguinte, Dom Adriano Hipólito, bispo de Nova Iguaçu, foi sequestrado e torturado.
Em 1980, bancas de jornais foram incendiadas em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, porque vendiam jornais alternativos.
Em 27 de agosto de 1980, como parte da Operação Cristal, uma carta-bomba destinada ao presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Eduardo Seabra Fagundes, matou na hora a secretária Lyda Monteiro da Silva. O funcionário José Ramiro dos Santos também ficou ferido no atentado.
No mesmo dia, outras duas cartas-bombas foram entregues e detonadas no Rio de Janeiro. Uma, no gabinete do vereador Antônio Carlos de Carvalho (PMDB), deixando seis pessoas feridas, e outra, na sede do jornal Tribuna da Imprensa.
Os autores dos atentados de 1980 envolveram-se no do Riocentro, meses depois, mas nunca foram punidos.
HOMENAGEM
A mesa de dona Lyda Monteiro da Silva, com as marcas da bomba, está exposta no Memorial da OAB, em Brasília. O nome dela foi dado ao Museu Histórico da entidade.

sábado, 4 de março de 2017

Aloha! Canoas havaianas partem de Santos para o 14.º Desafio Volta à Ilha de Santo Amaro

Lídia Maria de Melo
Antes da largada, equipes rezaram e soltaram gritos de guerra e aloha
(texto e fotos)
Hoje de manhã, levei minhas sandálias havaianas para assistirem à largada do 14.º Desafio Volta à Ilha de Santo Amaro de Canoas Havaianas, na Praia da Aparecida, em frente ao Colégio Escolástica Rosa, em Santos.
Os canoístas foram para o mar às 10 horas, depois que cada equipe deu seu grito de guerra e todos os participantes, de mãos dadas, formaram um círculo, rezaram em silêncio e, por fim, soltaram em uníssono um "aloha", saudação do povo havaiano, que tem significado de "amor", "afeto", "paz", "compaixão", "misericórdia" ou, simplesmente, "olá" e "tchau".
31 equipes participam do Desafio Volta à Ilha de Santo Amaro

Largada na Praia da Aparecida, em Santos
Durante a partida, o Porto de Santos permaneceu fechado. As embarcações de grande porte, como os navios, não puderam entrar ou sair do canal portuário, para permitir a passagem das canoas de 31 equipes participantes, além dos barcos e caiaques de apoio. 
As equipes são procedentes de vários estados brasileiros (Bahia tem cinco grupos) e de países estrangeiros, como Chile e Argentina. A prova inclui categoria masculina, feminina, mista e máster.
Largada na Praia da Aparecida, em Santos
O percurso da prova tem 75 Km, com trechos de mar e rio. Cada equipe é formada por nove atletas. Seis permanecem remando na canoa e três ficam em barco de apoio, para fazerem  revezamento com os remadores. A troca de atletas é realizada com as embarcações em movimento. As remadas são ininterruptas.
Ponto de partida e chegada, Praia da Aparecida
Depois da largada na Praia da Aparecida, as canoas seguiram costeando a Ilha de Santo Amaro, passando pelas praias de Guarujá, até conseguirem alcançar o Canal de Bertioga, depois o Canal do Estuário, no Porto de Santos, e, por fim, encerrarem no ponto de partida, em Santos.
A competição é organizada pelo canoísta Fábio Paiva e conta com um extenso rol de patrocinadores.
Durante a largada, uma cena chamou a atenção. Enquanto os canoístas desafiavam as ondas com remadas incessantes, na areia da praia, sob um sol já bastante forte, o ultramaratonista Valmir Nunes arrastava outros atletas para a corrida. Cada qual com seu esporte.
Ultramaratonista Valmir Nunes, sem camisa.

Outro ponto que não passou despercebido foi o uso de drones na cobertura da competição. Ainda na  na faixa de areia, o locutor chegou a advertir para o risco de acidente entre os equipamentos.
Na foto abaixo, é possível ver um dos drones.
Drone (dentro do círculo laranja) acompanha a largada

Fábio Paiva
O organizador do Desafio Volta à Ilha de Santo Amaro, o canoísta e multimedalhista Fábio Paiva, é introdutor da canoagem oceânica no Brasil.
Eu o conheci, profissionalmente, em 1990, quando o entrevistei para o jornal A Tribuna, de Santos, onde atuei por 23 anos, de 1988 a 2011, como repórter, subeditora e editora, e para o qual ainda colaboro esporadicamente.
Paiva, que também é engenheiro, havia projetado caiaques para dois fotógrafos publicitários, Vito D´Aléssio e Renato Dutra, que participaram da expedição pioneira batizada de Projeto Xingu, em 1989. As embarcações de fibra de vidro e resina de poliéster foram desenhadas e construídas na oficina Opium Competition Ltda., que na época Paiva mantinha no Bairro do Paquetá, em Santos.
Minha reportagem sobre o Projeto Xingu saiu publicada na edição de 8 de janeiro de 1990. Veja reprodução abaixo:

Fábio Paiva desenhou e construiu os caiaques
usados no expedição Projeto Xingu





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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

"Entre isso e aquilo" ou " entre isso ou aquilo"?

Outro dia, uma jornalista que foi minha aluna, enviou-me esta pergunta sobre o emprego da preposição "entre":
Professora, escrevi um texto usando ENTRE: "Quem tiver contas a pagar vai ter que escolher entre colocar comida na mesa e honrar os compromissos financeiros."
Aí o editor corrigiu: "Quem tiver contas a pagar vai ter que escolher entre colocar comida na mesa ou honrar os compromissos financeiros".
Fiquei na dúvida! Entre isso e aquilo OU Entre isso ou aquilo?
                                                                 ***
Esclareci a questão com esta resposta:
Uma das acepções da preposição "entre" é "a meio de" (dois espaços, dois tempos, duas situações etc).
Dessa forma, citando um exemplo do dicionarista Antônio Houaiss, podemos dizer: "O livro estava entre a mesa e a estante".  E ainda: "Está em dúvida entre a primavera e o outono".
Com base nesses enunciados, referendados por um dos maiores filólogos brasileiros, podemos concluir que você escreveu corretamente.
Seu editor deve ter se confundido com a expressão "ou isso ou aquilo" (sem "entre"). Utilizando a preposição "entre", o correto é como você usou, ou seja, com a conjunção "e".
Para empregar o "ou", o enunciado deve excluir o "entre". Desta forma : "Quem tiver contas a pagar vai ter que escolher: (DOIS PONTOS) ou colocar comida na mesa, (VÍRGULA) ou honrar os compromissos financeiros".
Reforçando, o correto é "entre isso e aquilo". 
Um abraço.


quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Para sempre Dom Paulo Evaristo Arns

Soube da morte de Dom Paulo Evaristo Arns no início da tarde de ontem.
Apesar de ele ter idade avançada e de que um dia todos nós iremos, lamentei e lamento muito sua partida.
Como cardeal arcebispo de São Paulo, Dom Paulo teve uma atuação importantíssima na defesa dos direitos dos perseguidos pela ditadura militar no Brasil. Salvou muitas vidas.
Em 1985, assinou o livro "Brasil, Nunca Mais", porque a equipe que o elaborou e desenvolveu o projeto de mesmo nome não poderia se identificar, pois corria risco de vida. O primeiro exemplar vendido em Santos eu comprei, na então Livraria Atlântica, depois Siciliano e hoje, Saraiva, na Avenida Ana Costa, no Gonzaga.
No prefácio desse livro, a respeito da tortura, morte e desaparecimento de presos políticos, ele escreveu: "Não há ninguém na Terra que consiga descrever a dor de quem viu um ente querido desaparecer atrás das grades da cadeia, sem mesmo poder adivinhar o que lhe aconteceu".
Dom Paulo já conquistou um lugar no céu há muito tempo. Vai se encontrar com a irmã. Dra. Zilda Arns.
Para sempre Dom Paulo.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Ferreira Gullar morreu. Viva Ferreira Gullar!

Ferreira Gullar morreu. Viva o poeta Ferreira Gullar! 
Parafraseando Guimarães Rosa, um poeta não morre, fica encantado. 
A poesia de Ferreira Gullar estará sempre me rodeando.
Quando eu estava no 7º. semestre de Jornalismo, na Faculdade de Comunicação de Santos, da Sociedade Visconde de São Leopoldo, atualmente UniSantos, o antigo prédio da Facos, na Pompeia, era de blocos e concreto aparente. Achávamos que era muito cinza e resolvemos pintar nossa classe. Eu participei da pintura interna e depois escrevi, com tinta amarela, no corredor, na parede externa, ao lado da porta de entrada da sala, um trecho do poema "No Mundo Há Muitas Armadilhas". 
Ferreira Gullar era um homem feio, de cabelo liso e comprido, que soube lidar com o exílio político, com as instabilidades de dois filhos esquizofrênicos. 
Tinha uma mente de vanguarda, mesmo aos 86 anos. A obra de Ferreira Gullar estará sempre comigo. Valeu, poeta!

NO MUNDO HÁ MUITAS ARMADILHAS

No mundo há muitas armadilhas
e o que é armadilha pode ser refúgio
e o que é refúgio pode ser armadilha
Tua janela por exemplo
aberta para o céu
e uma estrela a te dizer que o homem é nada
ou a manhã espumando na praia
a bater antes de Cabral, antes de Tróia
(há quatro séculos Tomás Bequimão
tomou a cidade, criou uma milícia popular
e depois foi traído, preso, enforcado)
No mundo há muitas armadilhas
e muitas bocas a te dizer
que a vida é pouca
que a vida é louca
E por que não a Bomba? te perguntam.
Por que não a Bomba para acabar com tudo, já
que a vida é louca?
Contudo, olhas o teu filho, o bichinho
que não sabe
que afoito se entranha à vida e quer
a vida
e busca o sol, a bola, fascinado vê
o avião e indaga e indaga
A vida é pouca
a vida é louca
mas não há senão ela.
E não te mataste, essa é a verdade.
Estás preso à vida como numa jaula.
Estamos todos presos
nesta jaula que Gagárin foi o primeiro a ver
de fora e nos dizer: é azul.
E já o sabíamos, tanto
que não te mataste e não vais
te matar
e aguentaras até o fim.
O certo é que nesta jaula há os que têm
e os que não têm
há os que têm tanto que sozinhos poderiam
alimentar a cidade
e os que não têm nem para o almoço de hoje
A estrela mente
o mar sofisma. De fato,
o homem está preso à vida e precisa viver
o homem tem fome
e precisa comer
o homem tem filhos
e precisa criá-los
Há muitas armadilhas no mundo e é preciso quebrá-las.


domingo, 20 de novembro de 2016

Pé de cidreira, um resgate de carinho

            



                                                     
 Lídia Maria de Melo 
(fotos e texto)

No fundo do quintal 
da casa de minha infância, 
havia um pé de cidreira.
Para ele, acorríamos
em busca de umas folhas
que aplacariam as dores
de nosso estômago ou intestino
depois de maceradas
e mergulhadas em água fervilhante.
Era um pé de uns sessenta centímetros
de altura, com cheiro doce e acolhedor.
Às vezes, nos dava flores miúdas
e perfumadas,
atração auspiciosa para abelhas e passarinhos.
Um grande companheiro de infância.
Fiel e protetor.
Hoje, que o tempo correu,
minha infância vive em um cofre de sonhos
e aquela casa nem existe mais,
a não ser nas gavetas da memória
e nos instantes das fotografias,
um novo pé de cidreira
acompanha meu dia a dia
neste jardim suspenso
de terraço de apartamento.
Também é atração de pássaros
com seu odor adocicado
e as florzinhas ocasionais.
Para matar a saudade,
mesmo sem dor de barriga,
nem estomacal,
 volto a fazer o chá que
minha mãe me ensinou.
É um resgate de carinho,
como canção de ninar,
um jeito de vencer o tempo
e reviver emoções 
ao menos pelo paladar.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Dois minutos de superluar

         Lídia Maria de Melo

Dois minutos de luar,
De visão, encanto e brilho
Na noite nublada e de vento.
Lua gigante, super, mega.
Lua cheia de novembro,
que fura nuvem, embala sonhos.
Lua que não se inibe, sob ameaça de chuva.
Lua famosa e notícia. De jornal, rádio, internet e TV.
Lua disputada por olhares deslumbrados
em terra, no mar, na saudade.
Lua fotografada, filmada,
bênção no céu do Brasil e de outros continentes.
Lua surpresa, presente, majestosa, magistral.
Lua satélite, mística, musa, rainha do céu.

Lua, prosa, poesia, verso de menestrel.



domingo, 13 de novembro de 2016

À beira do abismo, sob a chuva, passarinho descobre sua identidade, sua instintiva vocação


Lídia Maria de Melo (texto e fotos)

Com a presença de passarinhos nos terraços de meu apartamento, já estou acostumada, por causa das plantas, das flores. Mas não, com um deles no beiral da área de serviço.
Foi o que aconteceu neste sábado, às 13h30.
Chovia, quando ouvi um piado insistente e alto. Apanhei meu celular e fui na ponta dos pés tentar fotografar o animalzinho alado. Segui o som, um tanto desesperado. No terraço da sala não havia nada. Continuei a busca e cheguei à cozinha. Depois, à área de serviço.
Já estava com medo de me deparar c
om um pássaro perdido dentro do apartamento. Certamente, eu estaria em apuros.
Mas o que encontrei foi esse rapazinho da fotografia (ou seria uma mocinha?) piando, como a pedir socorro, para fugir da chuva.
Havia um outro com ele, que não hesitou em escapar, ao perceber minha aproximação.
Talvez fosse a mãe dele. Uma mãe um tanto desnaturada.
O(a) sujeitinho(a) estava visivelmente com medo e com frio, tentando evitar os pingos da chuva.
O olharzinho dele implorava ajuda, mas eu, covarde, fechei os vidros da área de serviço.
Passei a fotografá-lo, penalizada com o piado sofrido.
Imaginei que ele ainda era um filhote, que não sabia voar. Mas como teria chegado àquela altura de mais ou menos 20 metros?
Deixei-o lá à própria sorte. Não gostaria de estar na sua pele (ou nas suas penas).
Passados uns minutos, os piados cessaram.
Voltei lá, para conferir o que acontecera.
Bingo! O passarinho (re)descobriu sua identidade, sua instintiva vocação. Bateu asas e voou.
A mim, restaram as fotos e a curiosidade sobre a espécie daquele bichinho indefeso e ao mesmo tempo tão livre.
Alguém saberia identificar a espécie desse pássaro?

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Jornal Extra inova em recursos linguísticos e gráficos para noticiar eleição de Marcelo Crivella no Rio

Reprodução
Lídia Maria de Melo

Um dia após o segundo turno das eleições municipais, o jornal fluminense Extra circulou com uma primeira página digna de uma aula de análise de discurso.
A capa de 31 de outubro de 2016 do Extra traz sobre um fundo branco, simbolizando a paz, a seguinte manchete de duas linhas, em letras garrafais enlutadas:

             O RIO É
      UNIVERSAL

Fez um trocadilho, jogando com o duplo sentido da palavra "universal", que tanto se refere ao adjetivo que designa o que pertence ao universo inteiro, a todas as pessoas, coisas e lugares, quanto ao substantivo que denomina a igreja neopentecostal criada em 1977 pelo bispo Edir Macedo, um dos maiores desafetos da Rede Globo.
O jornal Extra é do grupo Globo. O senador e bispo Marcelo Crivella, prefeito eleito no segundo turno na cidade do Rio de Janeiro pelo PRB, é considerado o expoente da Universal na política brasileira.
Para complementar o título principal, o jornal usa um subtítulo, em corpo menor, formado por locuções. Em vez de vírgulas para separar essas expressões, emprega cores diversificadas e tamanho variado de letras, num exercício de metalinguagem.

         É DOS GAYS    DO CARNAVAL
         DAS MULHERES   DA DIVERSIDADE
         DA UMBANDA    DOS NEGROS
         DO CRISTO   DA TOLERÂNCIA


Logo abaixo, no lugar de uma única foto em seis colunas, ocupou cada uma das colunas com uma foto vertical distinta, representando em imagem tanto a universalidade da manchete, quanto os segmentos retratados nas locuções do subtítulo.
A primeira fotografia mostra o Cristo Redentor, símbolo máximo do Rio e das religiões cristãs. A única divergência é que os evangélicos, grupo no qual se incluem os integrantes da Universal, não aceitam o uso de imagens para representar santos ou mesmo o filho de Deus. Da memória da televisão brasileira e dos católicos, ainda não se apagou a cena de um bispo chutando a imagem de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, em um programa na TV Record, controlada pela Universal.
A segunda foto expõe uma mulher de bustiê, com a frase "Ventre Livre" grafada em seu corpo, numa referência à aprovação do aborto.
A terceira exibe o desfile de uma escola de samba no Carnaval da Marquês de Sapucaí.
A quarta retrata uma mulher com trajes de mãe de santo em uma praia, como se levasse oferendas a Iemanjá.
A quinta é uma fotografia da parada gay, com uma grande bandeira do Movimento LGBT.
A sexta traz uma mulher negra diante do Monumento a Zumbi dos Palmares, na Praça Onze, no centro do Rio.
Abaixo dessas fotografias, em vez de um título convencional, o Extra apelou para um recurso da publicidade, a função apelativa, ou conativa, da linguagem, grafando cada palavra com uma cor diferente: vermelha, amarela, verde e azul. Como se conversasse com o recém-eleito, que prometeu cuidar das pessoas cariocas, usou este título de quatro colunas em duas linhas:

AGORA, É CONTIGO,
               CRIVELLA 

Abaixo dessas fotografias, o jornal publica, em quatro colunas, uma foto de Marcelo Crivella, comemorando a vitória nos braços dos correligionários na noite de domingo, na sede do Bangu Atlético Clube, após a confirmação de sua vitória para comandar a Prefeitura do Rio de Janeiro, por quatro anos, a partir de 2017, em substituição a Eduardo Paes (PMDB).
Nas colunas à direita e à esquerda dessa foto. o Extra dá informações sobre a eleição de Crivella e sobre seu novo secretariado, que tem entre os nomes cotados: Índio, Osório e Bolsonaro.
A capa recebeu elogios e críticas dos leitores do diário.
Por meio dos recursos gráficos e linguísticos de que se valeu para compor essa primeira página, a edição evidenciou a opinião do jornal sobre a eleição do senador pastor e os desafios que ele terá que enfrentar em função de suas convicções religiosas e diante da diversidade existente na Cidade Maravilhosa.